Lya Luft
Quando eu menos esperava, alguém disse ao meu lado: “Por que você não escreve sobre a morte?”. Eu andava pensando em mudar de tema, sair da política, da educação, da ética, e chamar para dentro desta coluna esta velha senhora que palita os dentes enquanto nos espreita e, na sombra, prepara o bote. (Numa das primeiras traduções de um romance meu no exterior, no qual eu dizia “a morte preparou o bote”, a tradutora escreveu “aprontou-se para doar sua embarcação”.) Não tenho com relação à velha dama um pensamento mórbido, não a espero me deitando na cama e cruzando as mãos no peito, não curto essa que já me tirou o tapete de debaixo dos pés várias vezes. Mas, se de um lado ela me abraçava, de outro a vida estava ali, chamando. Sempre amanheceu outra vez.
Ainda assim, sem sermos deprimidos, coisa tão na moda, ter às vezes a noção de que tudo passa pode ser bom, como algo que ilumina a paisagam: então é assim, podia ser assim? Isso de que tanto me queixo nem é tragédia, é apenas mais uma chateação, e mesmo assim, sem lembrar que tudo acaba, eu perdi tempo de beleza ou afetos, tempo de descobrir e aprender, tempo de ter paz ou de lutar alguma boa luta?
Podia ter sido também mais tempo para a alegria. Pois, como escrevi e disse várias vezes, somos uma sociedade agitada, mas sem muita alegria.
Muita gritaria, pouca comunicação. Muita exibição de sensualidade, tantas vezes artificial e forçada, mas pouco amor. Muito palavrório, pouca realização. Muitas receitas sobre como educar os filhos, por exemplo, e a meninada tantas vezes sem compostura ( e nós?, e nós?), cheia de exigências, quando deveria era reclamar por estudo melhor, mais rigoroso, mais exigente, melhores professores, mais bem pagos e mais exigidos também. Mas queremos tudo simples e simplificado, queremos logo um bom emprego, de preferência de chefe, claro, quem quer ter de subir no emprego, quem quer ter de subir na vida? A gente quer estar logo no topo, ganhando bem, e nada de supervisor espiando por cima do ombro para ver se estamos trabalhando no computador ou entrando no face, no twitter, na pornô.
A gente não quer saber de nada sério, morte é coisa de velho,porém, como dizia a Clarice, a Lispector, ” um dia, tinha se passado vinte anos.” Um dia terão se passado quarenta anos, cinquenta, e a gente não vai nem saber que viveu, porque viveu, como continua vivendo. ” Desperdício” é uma das palavras que mais detesto na nossa língua e na nossa realidade. Desperdício de comida e dinheiro, de esforço, e de vida. Desperdício dos afetos, quando enganamos ou traímos. Quando somos irresponsáveis feito adolescentes eternos, e não acho graça nenhuma nisso. Atitudes de criança e de adolescente são toleráveis ou até graciosas na idade devida. Depois ficam chatas, depois ficam inconvenientes, ficam burras.
Quando penso na morte, não é só como a sombra da separação, mas como esse enigma que nos espia no fundo de um espelho onde, se sorrimos, nosso reflexo pode não sorrir - e aí o que a gente faz? Aí a gente se arrepende das besteiras, das bobagens, não daquelas naturais, normais - porque não somos perfeitos, que os deuses nos livrem das pessoas exemplares - mas da grande bobagem de ter vivido sem perceber, sem curtir. Não a curtição da bebida, da droga, da promiscuidade, mas da coisa profunda e gostosa dos bons afetos, da maravilhosa natureza. Dos trabalhos humanos que nos fizeram chegar das cavernas dos trogloditas até a mais apurada tecnologia que nos permite ver e ouvir pessoas amadas a milhares de quilômetros de distância, conhecer culturas, entender gentes, apreciar a arte, percorrer a natureza a mais remota, sem sair da mesa do computador.
O olhar da velha dama à espreita com seus olhos de gato, palitando os dentes como se não tivesse pressa, pode nos levar a mudar um pouco o mundo,sendo interessados, decentes, compassivos, leais. Isto é o que, talvez, a ideia eventual do efêmero de tudo pode nos trazer, sem drama: a consciência do nosso valor, da nossa capacidade, da nossa importância.
SESSÃO RETRÔ - VARIEDADES - FAFÁ DE BELÉM
Há 19 horas













